sexta-feira, 13 de julho de 2018

Filme: Verónica, de Paco Plaza.


Como hoje é sexta-feira 13, resolvi fazer esse post indicando um filme de terror para assistir num dia como esse. Nós já conhecemos muitos clássicos do gênero (inclusive, para mim eles são os melhores), mas achei que seria interessante escolher um filme mais atual e que fosse realmente bom.
Verórica é um filme espanhol, dirigido por Paco Plaza e que está disponível na Netflix. Sua sinopse diz o seguinte: "Em Madrid, no ano de 1991, após realizar uma brincadeira com espíritos na escola, uma adolescente suspeita que uma força maligna tenha entrado em seu apartamento." 


Entretanto, o que pode parecer apenas mais um filme de possessão por conta do tabuleiro Ouija, ainda tem alguns traços da narrativa e cenas que nos envolvem bastante, e não deixam brecha para aquele sentimento de mesmisse.
Mesmo seguindo a linha da adolescente desavisada que vai mexer com coisas que vão além do seu entendimento e do mundo em que vivemos, o filme mostra também um drama vivido pela família.


Verónica, ou como sua mãe e irmãos a chamam, Vero, é uma garota do ensino médio que cuida praticamente sozinha de seus três irmãos mais novos - duas meninas e um menino, que é o caçula. Após a morte de seu pai, sua mãe, para dar conta das despesas da casa, acaba por trabalhar quase em tempo integral. Ela aparece em casa apenas para dormir, e sempre de madrugada. Por conta disso, Vero tem a grande responsabilidade de tomar conta da casa e das crianças.
Apesar da rotina incomum para uma garota da sua idade, ela tem os mesmos pensamentos e curiosidades de qualquer jovem. E é justamente isso que faz com que ela e mais duas amigas resolvam testar o tabuleiro. Uma das meninas queria se contactar com o namorado que morreu em um acidente, e Vero queria falar com o seu pai. Só que é claro que isso iria dar  em merda. 


Depois que elas usam o tabuleiro, Vero, por talvez ser a que estava passando por um momento de mais fragilidade, é a escolhida. O espírito, que se mostrava como o seu pai, começa a atormentá-la e machucar seus irmãos.
As cenas em que ele aparece são bem tensas, daquelas que nos fazem ter vontade de colocar a almofada no rosto. E isso é uma das coisas que mais me interessaram no filme.


Vero passa a sofrer mais e mais por conta dessa presença maligna, tem sonhos estranhos, ataques noturnos, "alucinações", machucados pelo seu corpo... Na medida que o tempo vai passando, o Ser vai enfraquecendo-a e tornando-se mais forte. Até que chega o momento em que ela pede ajuda a alguém, uma das freiras da sua escola (ela estudava em um colégio católico, e as freiras eram as professoras). Verónica pede ajuda à irmã Morte, como é chamada pelos estudantes. A freira tem esse nome por conta de seus olhos que aparentemente foram queimados e por isso ela acabou cega.


A irmã, que é uma sensitiva, lhe explica o que acabou acontecendo com ela e lhe dá instruções de como se livrar do que lhe acompanha. A partir disso, o filme vai se tornando ainda mais intenso e assustador. O final, como é de se esperar, não é dos mais felizes, mas acaba por nos surpreender com o que acontece.

Ao que parece, esse é um filme baseado em fatos reais, mas eu não pesquisei para saber se essa é uma informação verdadeira. Se ele é ou não, isso eu não sei. Mas que é um bom filme para os amantes do gênero, isso eu posso afirmar. 
Espero que tenham gostado da indicação. Caso assistam o filme, comentem aqui o que acharam.
Vou deixar uma lista aqui de filmes de terror incríveis: 32 filmes de terror que farão você se esconder debaixo da cama. A lista é composta tanto de filmes mais antigos, quanto de mais atuais. Já assisti praticamente todos, e alguns fazem parte da minha lista de favoritos.
Feliz sexta-feira 13, protejam os gatinhos pretos, sacrifiquem humanos, haha. Abraços e até o próximo post. 🖤

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

TAG: Direitos do Leitor.

Estava assistindo alguns vídeos do canal da Tatiana Feltrin, como de costume, e acabei assistindo ao vídeo dessa tag, feita originalmente no canal da Jotapluftz. Ela retirou essa ideia de um livro chamado Como um romance, do escritor Daniel Pennac, que inclusive me deixou bem curiosa para lê-lo. Como adoro fazer/responder esse tipo de coisa, resolvi postar aqui. Agora vamos à tag.


1 - O direito de não ler: Um livro que você não quer ler nem que te paguem:

Acho que qualquer um do Paulo Coelho ou do Augusto Cury. E olhem que isso não é preconceito porque já me propus a ler algo dos dois para poder falar mal com razão.

2 - O direito de pular páginas: Um livro que você leu... só o que interessava:

Isso se aplica bem em livros de teoria literária, às vezes leio apenas o/os capítulo/s que preciso naquele momento. Mas se tratando de um livro específico, foi o Almanaque Wicca do ano passado, li apenas os artigos que me interessavam.

3 - O direito de não terminar um livro: Um livro que você começou algumas vezes antes de ler inteiro:

As Palavras Secretas, de Rubens Figueiredo. Esse foi o autor que trabalhei na pesquisa para o PIBIC e não tinha nenhuma familiaridade com a escrita dele, por se tratar de literatura contemporânea e ela ter certas peculiaridades que não tinha tanto contato na época. Demorei um pouco para engatar a leitura justamente pelo estranhamento, mas deu tudo certo. 

4 - O direito de reler: Um livro que você salvaria no fim do mundo, para reler pela eternidade:

Acho que O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë. Para mim é muito difícil estabelecer apenas uma coisa como favorita, mas esse livro me prendeu de uma forma tão grande que com certeza quero reler sempre que puder.

5 - O direito de ler qualquer coisa: O livro mais improvável que você já leu e gostou, e que algumas pessoas talvez duvidem que você leu:

Maybe Someday (Talvez Um Dia), de Colleen Hoover. Não tenho muito costume de ler livros YA e best sellers, por isso foi bem improvável. Li esse livro por indicação de uma amiga em 2014 (foi ela que me apresentou How I Met Your Mother, por isso tem credibilidade, haha), ela ficou tanto tempo falando sobre como ele era emocionante e lindo e que eu precisava ler que acabei lendo e gostando bastante. 

6 - O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível): Um livro que parecia ótimo! Mas o tempo passou... e você pensou a respeito:

Os livros do Dan Brown: Anjos e Demônios, O Código Da Vince, O Símbolo Perdido e Inferno. Não que eu não goste mais desses livros, mas porque na época em que li achava que se tratava das histórias mais geniais ever, só que o tempo passou, vieram outras leituras e vi que ainda existem tantos livros extremamente fascinantes que já li e que ainda preciso ler.

7 - O direito de ler em qualquer lugar: O lugar mais estranho/improvável em que você já leu um livro:

Não sei se pode ser minha memória falhando, mas não consegui pensar num lugar realmente estranho que já tenha lido. Mas, resolvi dizer que no ônibus a caminho da faculdade. Você pode até não achar estranho e sim muito comum, o que realmente é, só que se tratando do meu ônibus isso é bem diferente, pois ler no calor extremo, com sol na sua cara, com barulho e sentindo ânsia por conta do balanço não é nada legal. 

8 - O direito de ler uma frase aqui e outra ali: Um livro que te alimenta com pequenas doses diárias:

Não tenho um livro de cabeceira, mas sempre que limpo a minha estante ou só fico olhando para ela, pego algum dos livros de poemas e leio alguns, principalmente o de sonetos da Florbela Espanca.

9 - O direito de ler em voz alta: Um livro que você precisou ler em voz alta.

Eu particularmente gosto muito de ler em voz alta, porque acredito que ajuda na compreensão. Por isso os livros que mais gosto de ler assim são os teóricos, e o último foi Ficção Brasileira Contemporânea, do Erik Schollhammer.

10 - O direito de calar: Um livro que te deixou sem palavras, porque era muito bom... ou muito ruim:

Sempre falo de livros que acho muito bons, por isso vou falar de um que foi bem ruim: O Primo Basílio, do Eça de Queirós. Sim, um clássico, mas que nem por isso escapa de ser extremamente maçante e ter umas partes horrivelmente desnecessárias.

Fique à vontade para responder a tag caso se interesse e comentar aqui o que achou. Beijos e até mais. ❤️

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Resenha: Jane Eyre, de Charlotte Brontë.

Charlotte Brontë por J. H. Thompson.
Charlotte Brontë (1816-1855), foi uma escritora inglesa do século XIX, nascida em Thornton, Yorkshire. A terceira filha do casal Patrick e Maria, e a mais velha entre Anne e Emily Brontë. Começou a escrever, juntamente com suas irmãs, ainda quando criança. Embora seus primeiros livros publicados tenham sido também assinados com pseudônimo masculino (Currer Bell), Charlotte conseguiu reconhecimento por suas obras com personagens transgressoras e a frente de seu tempo. É autora dos seguintes romances: Shirley (1849), O Professor (1857), Villette (1853), e Jane Eyre (1847), além de vários poemas.
Em 1842, Charlotte e Emily vão para a Bélgica para se matricular na escola Constantin Héger, onde Charlotte acaba apaixonando-se por seu professor, que era casado, mas tudo não passa de um amor platônico. Anos depois ela assume um posto como professora na mesma escola, mas no ano seguinte volta para sua casa. Ao que parece, suas experiencias vividas naquele lugar lhe serviram como inspiração para escrever O Professor e Villette.
Quando criança, após a morte de sua mãe, ela e suas irmãs mais velhas, Maria e Elizabeth, foram mandadas para um colégio interno, onde as condições precárias da instituição fizeram com que suas irmãs adoecessem e morressem de tuberculose. Essa experiencia traumática serviu como inspiração para o colégio Lowood em Jane Eyre. Charlotte teve muitas perdas em sua vida, basicamente viu toda a sua família morrer, primeiro sua mãe, depois as irmãs mais velhas, o pai, o irmão, e suas irmãs caçulas. Diante da dor da perda, ela usou a escrita como sua aliada e como uma forma de lidar melhor com os infortúnios. Ela chegou a casar-se, mas acabou também tendo uma vida curta, pois morreu prestes a completar 39 anos, devido a complicações em sua gravidez. É impossível não admirar os Brontë, principalmente as três irmãs que tanto amo. Charlotte conseguiu transformar seu sofrimento e inquietações em arte, e mesmo tento todas as limitações impostas nas mulheres do século XIX, conseguiu através de sua escrita criticar esse sistema e nos mostrar mulheres fortes e independentes em seus livros.


"Não sou um pássaro, e não fui presa em uma armadilha. Sou um ser humano livre com minha vontade independente."
A frase acima é uma das mais célebres deste romance que me trouxe tanta indignação, sorrisos, lágrimas e empatia pela minha querida Jane. Brontë escreveu seu livro aos moldes do romance de formação alemão do século XIX (o Bildungsroman), que são histórias sobre o amadurecimento das personagens desde a infância até a maturidade, vivenciando obstáculos para atingir a vida adulta e conseguir a resolução de seus problemas. O grande diferencial da obra é que esse desenvolvimento da individualidade e identidade das personagens era feita apenas através de figuras masculinas, pois, naquele período, não se acreditava que as mulheres pudessem ter a mesma profundidade. Por isso Jane Eyre é considerada uma obra transgressora, por além de outros temas, trazer à tona que as mulheres podem ser tão complexas na sua interioridade quanto os homens.
O livro começa com a infância de Jane, que sendo órfã de pai e mãe, sem nenhum dinheiro, fica aos cuidados de uma tia que só toma conta dela por obrigação e sem nenhum amor. Amor é algo que Jane não sabia o que significava nessa época, pois todos na casa ou eram indiferentes à ela ou a tratavam muito mal, como sua tia e o filho dela, John Reed. Jane sofreu muitos abusos físicos e mentais na casa de sua tia, apanhava do primo mais velho, era ignorada pelas primas, e quando revidava às provocações e violências do primo, era trancafiada em um quarto isolado da casa, onde as crianças acreditavam ser mal assombrado.
Sua tia acaba mandando-lhe para um colégio interno muito rígido, a escola Lowood. Aqui Jane terá mais uma grande sucessão de sofrimentos. Por ser um local regido por um religioso extremamente rígido e avarento, as meninas de Lowood viviam em uma situação muito precária e tinham até a comida racionada, além de estarem a mercê de castigos severos. Apesar disso, Jane vê em uma de suas professoras, a Senhorita Temple, e em sua única amiga, Helen, um pouco do que significa afeto e companheirismo, mas, mais uma vez vem a perda: uma das passagens mais tristes do livro e que não vou entrar em detalhes, apenas dizer que Jane perde sua amiga.


Passaram-se os anos e ela acaba se tornando professora da escola e logo depois resolve ir atrás de um emprego como preceptora em alguma casa. Jane não almejava um casamento, algo que era considerado o mais apropriado para uma moça de 18 anos. O que ela queria era um emprego para com isso se tornar independente e que a fizesse ser útil ou boa em algo. Pode parecer muito simples para nós essa escolha, mas como se trata de um romance escrito no século XIX, numa época marcada ainda pelo puritanismo, esse ideal de liberdade não era comum.
Começando a trabalhar em Thornfield Hall, uma propriedade no campo, onde seria preceptora de uma menina francesa, Adèle, Jane acaba se apaixonando por seu patrão e tutor da menina, o Sr. Rochester. Edward Rochester era um homem de aparência dura e personalidade igualmente séria, apesar de ter um certo charme, e que guardava um grande segredo escondido entre as paredes de sua propriedade, algo que Jane só descobre em mais um momento trágico de sua vida. Rochester acaba também se apaixonando por Jane, mas nem por isso ela deixa de lado a sua personalidade forte e faz com que isso seja uma paixão cega. Em muitos momentos nós vemos respostas bem dadas que Jane diz a ele sobre as coisas que lhe desagradavam ou que não concordava:
"O senhor pensa que eu sou um autômato? Uma máquina sem sentimentos? E que possa aguentar que tirem de mim a migalha de pão de meus lábios e a gota d'água da vida de minha taça? O senhor pensa que por eu ser pobre, sombria, simples e pequena, não tenho alma ou coração? Se pensa, está enganado! Tenho tanta alma quanto o senhor. E um coração ainda maior!" (p. 440)
Era de se esperar, para as pessoas daquela sociedade, que Jane como sendo "inferior" a Edward, fosse sempre complacente e se sentisse honrada por ter o seu amor. Mas o espírito de Jane não aceitava isso, é inclusive nessa discussão que ela profere sua frase sobre não ser um pássaro engaiolado. Tanto que no dia de seu casamento, o segredo do Sr. Rochester: o fato de ele já ser casado, mesmo não tendo mais uma relação de marido e mulher com sua esposa (prefiro não dizer tudo aqui porque para quem não conhece a história, é um ponto crucial e importantíssimo que não merece ser estragado) faz com que Jane não aceite viver com ele dessa maneira. Ela tem a consciência de que não viveria como sua amante, pois se ocasionalmente ele decidisse que não a quereria mais, ela estaria novamente abandonada no mundo, sem sua liberdade ou independência que tanto desejava, ou seja, sem ter conquistado nada do que tanto queria. Entre "viver de amor" e ir em busca de sua própria sorte, Jane escolhe a segunda opção e foge de Thornfield Hall sem nada a não ser a roupa do corpo e alguns trocados, indo parar nos vilarejos aos redores de Whitcross, e distantes de sua antiga casa.
Neste momento Jane começa a passar por mais adversidades, como se já tivesse sofrido pouco...
Depois que seus tostões acabam, ela passa fome, frio, e começa a vagar moribunda até que encontra uma casa onde lhe dão abrigo, cuidam dela e que depois de recuperada, lhe conseguem um emprego como professora numa pequena escola do vilarejo. Por ironia do destino, algum tempo depois ela acaba descobrindo que Diana, Mary e St. John - as pessoas que a abrigaram em sua casa -, são na verdade seus primos. Isso faz parte e é uma das características marcantes dessas narrativas, pois logo após passar por todos os sofrimentos e fatalidades que ocorreram em sua vida, Jane, que era sozinha no mundo, acaba descobrindo não só uma família como também ser dona de uma herança deixada por seu tio falecido. E aqui, mais uma vez, ela vai recusar um casamento, dessa vez por acreditar que alguém só deveria casar-se por amor e nunca por obrigação.
Mesmo depois de tudo o que lhe acontece, Jane não esquece de seu amor por Rochester e vive se questionando como ele estaria. Tenho impressões muito adversas sobre o sr. Rochester, porque apesar de ser nítido o seu amor e devoção por ela, ainda não dá para engolir certas coisas, por isso eu posso dizer que gosto e não gosto dele, ao mesmo tempo.
Em uma certa noite, Jane acaba ouvindo sua voz gritando seu nome e pedindo para que vá ao seu encontro, nessa passagem podemos ver a presença de alguns elementos sobrenaturais presentes na obra, além da crença de Jane e até de Edward em figuras fantásticas como duendes e fadas. Desse modo ela resolve ir ao seu encontro, que por sinal foi muito emocionante e uma das partes mais bonitinhas e tristes do livro. Aqui temos o momento de redenção do sr. Rochester, e o momento que - finalmente - nossa menina Jane terá seu momento de felicidade e liberdade plena.



Neste livro nós podemos ver críticas ao papel da mulher na sociedade vitoriana; crítica ao cristianismo através da figura do Senhor Brocklehurst, dono de Lowood; algumas características da literatura gótica, como os cenários lúgubres, o confinamento, e eventos sobrenaturais; e críticas à hipocrisia dessa sociedade. É como se Charlotte Brontë percebesse os anseios do público feminino por liberdade e educação, usando seu livro como um verdadeiro manifesto à liberdade, além de em suas mais de 700 páginas nos proporcionar sentimentos dos mais diversos.

Minha trajetória com esse livro acabou sendo bem mais longa do que imaginei. O primeiro contato que tive com essa história foi através do filme de 2011 (as imagens acima são dele), o qual fez com que me visse simplesmente encantada e envolvida com essa história e, claro, morrendo de vontade de ler o livro. Quando finalmente consegui comprá-lo e começar a ler, a vida acadêmica e as leituras obrigatórias não me deixaram devorá-lo de uma só vez. Acabei lendo em pequenas doses, por isso e por ter gostado tanto, pretendo relê-lo em breve. É incrível como as irmãs Brontë, a cada obra que vou lendo de cada uma, me fazem só ter mais certeza que elas são umas das minhas escritoras favoritas. Existem várias adaptações no cinema, ainda pretendo assisti-las, bem como uma série produzida pela BBC. Caso você se interesse pela história, recomendo que procure uma dessas produções e provavelmente depois você estará pesquisando o livro para comprar, rs.
Espero que tenham gostado da resenha, um abraço. 💜

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Conto: O Baile da Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe (1809 - 1849), nosso mestre da literatura de horror e mistério completa hoje 209 anos de nascimento, e pensando nisso resolvi trazer para vocês, em homenagem a ele, uma resenha do conto O Baile da Morte Vermelha (ou A Máscara da Morte Escarlate, entre outros títulos, a depender da tradução), a minha edição é o primeiro volume da obra completa do Poe lançado pela Darkside Books. 
O conto narra uma história de horror ocorrida em um reino distante, o qual a Morte Vermelha  (que seria a tuberculose - doença que matou as mulheres que Poe mais amava na vida -, elevada a um grau bem mais cruel e sangrento) assolava a população. Esta era extremamente contagiosa, devastadora e levava os doentes a morrerem com seus rostos e corpos banhados de sangue rapidamente. Por esse motivo era tão temida e fez com que o Príncipe Próspero fosse com sua corte e a alta sociedade do lugar viver em um local afastado, suprindo-se de todos os mantimentos, dando bailes e festas nesse seu palácio, enquanto a população pobre era dizimada. O lugar era muito bem protegido por portões de ferro, e a chave dos portões havia sido jogada fora para que ninguém mais pudesse sair nem entrar. A história se passa em um dos bailes de máscaras realizados pelo príncipe, o qual os convivas utilizavam máscaras diversas, numa brincadeira de unir o grotesco com o belo, bem no estilo de Poe. Um dos "personagens" importantes no conto é o imponente relógio de ébano, onde a cada badalada que marcava as horas, os músicos paravam de tocar e as pessoas do baile fingiam susto, mas depois sorriam pois sabiam estar longe do Mal que assolava lá fora. Podemos ver nesse conto, através do horror, uma crítica de Poe aos poderosos que enquanto a população sofre dos mais terríveis males e necessidades, as pessoas que estão no poder estão desfrutando de todo o luxo e prazer que o dinheiro pode pagar. Isso não nos lembra uma realidade que até hoje é viva em nossa sociedade? Pois é. Eis uma das coisas mais interessantes (e tristes) de se ler algo escrito há tantos anos, o fato de que infelizmente algumas coisas nunca mudam, por mais horríveis que elas sejam.
Mas como se trata de uma história escrita por Edgar Allan Poe, ele não poderia nos deixar terminar de ler o conto sem uma surpresa. Quando o grande relógio marca as doze badaladas, um certo não convidado surge na festa. É uma pessoa com vestes horrendas e uma máscara que traz aflição para quem a vê:
E foi talvez assim, do mesmo modo, que antes silenciassem os ecos das derradeiras badaladas, que muitos participantes na multidão do baile, vendo-se desocupados por um instante, atinaram para a presença de uma figura macabra que, até então, não tinha chamado a atenção de ninguém. E o rumor provocado por essa nova presença, espalhando-se em sussurros pelos baile, fez surgir entre os convidados um burburinho, um murmúrio de desaprovação surpresa - e, por fim, terror, horror e repulsa. [...] A figura era alta e esquelética, trajando da cabeça aos pés as vestes da morte. A máscara que cobria seu rosto fora criada para imitar com tamanho apuro a feição de um cadáver enrijecido que nem mesmo um exame minucioso a reconheceria como falsa. E, no entanto, tudo isso poderia ter sido suportado, quiçá até admirado, pelos desvairados foliões ao seu redor. Contudo, o mascarado tinha ido longe demais, reproduzindo justamente a figura da Morte Vermelha. Seu traje estava coberto de sangue - e sua testa ampla, bem como todo o rosto, estavam salpicados com o horror escarlate. (p. 79-80).
Quem poderia ser essa pessoa, sendo que era impossível alguém conseguir passar pelos grandes portões de ferro? Com certeza não se tratava de alguém, mas sim de um ser, ou a própria personificação da Morte Escarlate. É aí que Poe nos mostra que nem mesmo um príncipe chamado Próspero estaria livre, pois a própria Morte foi à sua procura, e acaba sendo vitoriosa no final.

Esse conto é um dos mais curtinhos do Poe, mas mesmo em poucas páginas ele consegue nos fazer mergulhar na narrativa facilmente. O Baile da Morte Vermelha é uma crítica ao egoísmo humano, aos detentores do poder que estão mais preocupados com seu bel prazer do que com a população e suas necessidades. O autor utiliza de uma narrativa fantástica para mostrar algo real e tão horrendo quando a face da Morte Vermelha.
Espero que tenham gostado desta pequena resenha, e se você é um fã de literatura/filmes de horror e mistério e ainda não leu nada do Poe, pode correr e baixar um pdf de algum conto ou mesmo poema dele, pois posso garantir que irá se apaixonar.
Abracinho e até mais. <3

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Direito ao voto e movimento feminista: As Sufragistas e She's Beautiful When She's Angry.

Entender o movimento feminista e as conquistas que as mulheres conseguiram através dele é de suma importância principalmente para nós, mulheres, para nos enxergarmos melhor como indivíduos na sociedade, enxergar as conquistas de direitos que outras mulheres no passado lutaram tanto para conseguir e que esses direitos não são eternos, está sempre em jogo a retirada deles, por isso é tão importante que essa luta continue e que nós não deixemos nunca que o retrocesso caia sobre nós e, claro, porque ainda há muita coisa que precisa ser mudada. Os dois filmes (um deles é um documentário) que trouxe como sugestão têm essa temática em comum e, melhor ainda: os dois estão disponíveis na Netflix!

Filme: As Sufragistas (2015):



Sinopse: No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios.

Se você procurar num dicionário o que significa sufragista verá que é quem defende a extensão de votos a todos, sem distinção de raça, sexo, poder econômico, origem etc., esse termo é utilizado para se referir às mulheres que lutaram e até se sacrificaram por esse direito. O filme retrata muito bem esse grupo de mulheres britânicas que reivindicavam seu direito ao voto, além de melhores condições de trabalho e salários justos. Esse grupo era formado por mulheres comuns, mães, trabalhadoras de fábricas, lavanderias etc., que além de ficarem expostas a todo tipo de perigos no trabalho, como queimaduras e envenenamento com gás (os homens eram os encarregados das entregas, pois as mulheres não podiam circular livremente pelas ruas e tampouco fazer esse trabalho, por isso eles respiravam ar puro, enquanto elas se intoxicavam dentro das fábricas), recebiam um salário muito inferior ao dos homens. A protagonista, Maud, é uma dessas mulheres, ela trabalhou numa lavanderia desde sua infância, foi explorada e até abusada sexualmente (o que fica meio que implícito no filme, mas podemos muito bem notar isso em algumas cenas), mesmo diante disso ela acreditava que tudo estava bem, pois tinha um marido respeitoso, um filhinho, uma casa... Foi através de uma de suas colegas de trabalho, Violet, que ela acabou se envolvendo e conhecendo o sufrágio. A partir disso, Maud se entrega totalmente à causa e luta ao lado dessas mulheres. Vou deixar aqui uma das frases mais lindas e impactantes do filme, que foi proferida pela líder das sufragistas, Emmeline Pankhurst (a maravilhosa Meryl Streep):
"Durante cinquenta anos temos trabalhado de forma pacífica para garantir o voto para as mulheres. Temos sido ridicularizadas, maltratadas e ignoradas. Agora percebemos que ações e sacrifícios, devem ser a ordem do dia. Estamos lutando por um tempo em que cada menina nascida neste mundo terá uma oportunidade igual aos seus irmãos. Nunca subestime o poder que as mulheres têm de definir os nossos próprios destinos. Nós não queremos quebrar as leis, nós queremos fazê-las."
Fiquei até arrepiada nessa cena, e em várias outras ao longo do filme. Vale lembrar que ele é histórico, trata de algo que realmente aconteceu, de mulheres que realmente existiram e que sem elas nós não teríamos um dos direitos mais importantes para serem exercidos pelos/as cidadãos/ãs.


Documentário: She's Beautiful When She's Angry (2014):




Sinopse: Conta a história das mulheres que criaram o movimento feminista nos anos 1960, fazendo uma revolução em todos os âmbitos sociais.

Uma sinopse tão pequena, mas uma produção de magnitude incontestável. O título desse documentário já é uma provocação: "Ela fica linda quando está com raiva", frase esta que provavelmente já foi muito ouvida pela maioria das mulheres, proferida por algum homem com o intuito de nos irritar. A produção retrata a luta das mulheres que lideraram o movimento feminista entre 1966 e 1971 nos EUA, baseado em entrevistas concedidas pelas líderes do movimento, imagens e reportagens gravadas na época, e entrevista com essas mesmas mulheres no ano atual, com comentários e explicações dessas mulheres do contexto da época. No doc nós podemos ver todos os temas que eram debatidos por elas e que estavam em pauta para serem mudados ou conquistados: igualdade econômica, política e social, como: oportunidades de emprego, salários dignos, legalização do aborto, reivindicações de creches (para que as mulheres tivessem um lugar seguro para deixar seus filhos enquanto trabalhavam) etc., os temas eram muitos, e boa parte deles ainda estão em voga até hoje, o que nos faz pensar muito sobre o porquê do feminismo ser tão necessário.
Alguns dos relatos que mais chamaram minha atenção ao longo do doc foram: as mulheres que tinham a mesma formação acadêmica e até superior a dos homens ganhavam menos; mulheres que depois de formadas e até com pós-graduação se dando conta de que elas não conheciam nada sobre a história da mulher (tanto nas artes, como em feitos históricos, sociais etc.), algo que acabou gerando um protesto onde aquelas mulheres queimavam seus diplomas, títulos de mestre, pois não valiam de nada sendo que tinham tão pouco conhecimento sobre si próprias; outro relato de uma estudante de graduação que no primeiro dia de aula, um de seus professores lhe disse a seguinte frase: "ou você me deixa foder você, ou eu fodo você", depois disso ela resolveu largar a faculdade e começou a participar do movimento; existe também o caso das mulheres negras, pois a causa feminista começou com mulheres brancas que buscavam seus direitos por trabalho, por exemplo, coisa que as negras já faziam há muito tempo: trabalhar na casa das brancas, inclusive cuidando de seus filhos enquanto elas trabalhavam. Isso me fez refletir muito na questão do feminismo interseccional [clique aqui para ler sobre]. O feminismo negro tem outras pautas, bem diferentes do feminismo branco (você pode até estranhar essa dicotomia branco/negro, mas isso não é preconceituoso ou algo errado, e sim algo existente e quem tem suas diferenças), pois no caso do feminismo branco, as mulheres estão em busca da sua liberdade sexual, de quebrar o estigma do "anjo do lar", de acabar com a pré-destinação de se casarem e terem filhos, mesmo não querendo etc. Já para as mulheres negras, essa sexualização já existe, e é inclusive muito forte, a mulher negra é (ainda mais) vista como um objeto, e na maioria dos casos ela dificilmente se casa, pois os homens as tratam como simples casos e escolhem as "belas, recatadas e do lar" para se casarem. Além desses exemplos, muitos outros foram retratados.
Esse documentário é tão incrível, que vou deixar este post de 9 motivos para assistir ao documentário She’s Beautiful When She’s Angry na Netflix [clique no título], para que tenham mais algumas informações adicionais.


Já fazia um bom tempo que queria assistir ao documentário, e descobri a existência do filme através de um post sobre filmes dirigidos por mulheres para assistir na Netflix. Espero que o pouco que falei sobre cada um deles tenha trazido algum interesse tanto em assisti-los, quanto em buscar entender a importância dos direitos que conquistamos com tanta luta.
Abraço e até breve. <3

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

#LeiaMulheres 2018.

Hoje é dia de arrumar a minha estante e o quarto, pois finalmente estou de férias e vou poder aproveitar o tempo no meu cantinho. Por isso resolvi fazer esse post e mostrar para vocês uma parte da minha meta de leitura para esse ano, que consiste em, princialmente, ler mais livros escritos por mulheres. O ano de 2018 vai ser muito importante para mim e acredito que muito difícil também. Este é o meu último ano na faculdade e minhas férias serão o tempo que terei para finalmente delimitar o tema da Monografia. Mesmo já sabendo que quero fazer o TCC direcionado para a literatura de autoria feminina, preciso escolher dentre as inúmeras obras que passaram por minha cabeça, então, a escolha das leituras que irei fazer será muito importante para me ajudar a decidir.

O Leia Mulheres (clique no nome para conhecer melhor) é um clube de leitura criado para dar mais visibilidade a livros escritos por mulheres, pois como pode-se perceber, sobretudo no cânone literário, as mulheres por muito tempo não tiveram as mesmas oportunidades que os homens no campo da literatura também, por questões que já foram comentadas aqui no post sobre o livro Profissões para mulheres, de Virginia Woolf. Nos dias de hoje isso tem mudado, claro, mas ainda não é o ideal. Como na minha cidade (e em Parnaíba que é como se fosse minha segunda casa) não existe o Leia Mulheres, resolvi há algum tempo eu mesma fazer as leituras, sem nenhum vínculo ou criação de um clube, até porque acho que não tenho as condições necessárias para isso. Mas, enfim, resolvi apenas com a minha vontade de fazer essas leituras, escolher algumas autoras e livros para serem lidos. Os meus critérios de escolhas não foram exatamente como os do clube, mas sim de livros que me despertaram interesse de alguma forma e que tive como ter acesso. A minha lista é ainda bem maior, e espero que ao longo do ano eu consiga adquirir mais obras e ter tempo para lê-las.

Além da leitura, escolherei alguns deles para resenhar e postar aqui. Isso também vai me ajudar na escolha dos que usarei no TCC, pois vou precisar fazer fichamentos e análises deles. Espero fazer destes poucos meses de férias algo muito produtivo e, com isso, acabar ficando mais presente por aqui. Agora vamos aos livros:


  • O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (2 volumes);
  • Mulheres... Sob todas as luzes, de Patrícia Rocha;
  • O Conto da Aia, de Margaret Atwood;
  • Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf;
  • A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir;
  • Rumo ao Farol, de Virginia Woolf;
  • O Anuário da Grande Mãe, de Mirella Faur;
  • A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath;
  • Jane Eyre, de Charlotte Brontë;
  • Onde Estivestes de Noite, de Clarice Lispector.

Dos livros escolhidos, já comecei a ler dois: Jane Eyre e Onde Estivestes de Noite. Comecei a ler Jane Eyre ainda no ano passado, mas infelizmente não consegui concluí-lo antes do ano acabar, ele acabou sendo deixado de lado por conta da faculdade e outras leituras, mas em breve irei retomá-lo. O da Clarice é de contos e comecei-o vindo no ônibus de volta para casa. 
Não irei estabelecer uma ordem de leitura, pelo menos por enquanto, mas tentarei ser o mais organizada possível. Como disse anteriormente, à medida que for fazendo a leitura, irei fazer um post sobre eles.

Espero que tenham gostado da escolha de livros. Caso tenham lido algum deles ou também façam parte da sua meta, deixe seu comentário aqui, pois com certeza adoraria ler.
Um abraço e até breve. 💜

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Resenha do filme Dogville, de Lars Von Trier.

Lars Von Trier é um cineasta e roteirista de origem dinamarquesa, foi vencedor de diversos prêmios europeus de cinema em sua carreira. Seu filme de estreia foi Befrielsesbilleder (1982), sendo ele uma obra de transição e que encaixa-se na proposta de seus curtas, mesmo já se relacionando com a estética de seus filmes seguintes. Mas seu maior reconhecimento veio com seu oitavo filme, Ondas do Destino (1996). Trier dirigiu diversos filmes, com destaque especial para Anticristo (2009), Melancolia, (2011), Ninfomaníaca I e II (2013), Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003).
*Atenção, pois a resenha contém alguns spoilers.*
Dogville se passa em uma modesta cidade ou vila de mesmo nome, o filme é dividido em dez partes – incluindo o Prólogo, onde são mostrados os resumos do que acontecerá em cada capítulo, nos relevando o desfecho de cada um deles, mas isso de forma alguma atrapalha o desenrolar da trama e nossa percepção sobre ela.
Tudo começa com um narrador que nos introduz dentro do filme com a seguinte frase: “Esta é a triste história da cidade chamada Dogville.” Logo depois nos é mostrado o local onde a cidade se encontra, nas Montanhas Rochosas dos EUA. Assim que entra a primeira cena, já é causado um certo estranhamento por não se tratar de cenários comuns, pois a cidade não passa de um palco teatral, onde as casas, ruas e estabelecimentos são demarcados no chão, sem paredes e contando apenas com detalhes que configurem esses lugares, tais como sofás, camas, o sino da igreja etc., nem mesmo o cachorro, personagem importante dentro da obra, é de “verdade”, só se ouve seus latidos e vê-se a demarcação do lugar onde ele estaria. Isso é um grande exemplo desse jogo perceptível na ficção contemporânea, sobre o que é real.


O enredo do longa gira em torno da chegada da personagem Grace à Dogville, que é fugitiva de um grupo de gângsteres e tenta procurar refúgio, e a mudança que ocorre das aparentes boas pessoas que lá viviam. Grace destoa dos habitantes da cidade, que são pessoas simples e a maioria pobre; vestida com suas roupas caras e com aparência limpa, cabelos e pele bonita. Tom, que pode ser considerado o co-protagonista, se sensibiliza com sua situação e resolve interceder por Grace procurando um modo dos moradores de Dogville aceitarem-na. Tom considera-se um filósofo em desenvolvimento e almeja ser escritor. Ele acredita que a vinda desta estranha poderia ajudar a desenvolver a empatia e companheirismo das pessoas que lá viviam, pois acredita que essas pessoas precisavam desenvolver mais o seu lado humano, o que acaba acontecendo, mas de um modo deturpado, pois o que há de pior na natureza humana é colocado para fora por essas pessoas.


Depois de uma reunião organizada por Tom, a permanência de Grace na cidade é aceita, porém, ela teria de devolver-lhes algo em troca dessa proteção: “Dogville lhe deu duas semanas. O que dará a ela?” Desse modo, Tom tem a ideia de pedir para Grace ajudar as pessoas em “algo que não precisa ser feito”, ela começa a fazer os trabalhos que gostariam que fosse feito, mas que não achavam necessário ou auxiliá-los em qualquer de suas necessidades. O que aparentemente parece justo, acaba se tornando uma grande exploração. Aqui entra a proposta de Lars de criticar o American Way of Life, pois este é um dos filmes de sua trilogia que têm o intuito de criticar as políticas econômicas e sociais dos EUA.
Grace pensa estar vivendo em uma situação de ajuda mútua, o que acaba mudando quando aparece um policial com um aviso de Desaparecida com o seu rosto estampado, isso causa uma grande inquietação entre os moradores de Dogville, e que acaba se agravando com uma segunda visita de policiais mudando o cartaz de “desaparecida” para “procurada”. É a partir disso que o sofrimento maior e exploração de Grace começa. Ela passa a servir de escrava para essas pessoas, com a desculpa de eles estarem protegendo-a e que o risco que corriam por estarem fazendo isso aumentara.
Os abusos sofridos por Grace ultrapassam a exploração de seu trabalho e acabam se tornando sexuais. Grace é estuprada, uma cena chocante tanto pelo ato de violência, quanto pelo cenário do filme: sem paredes. Enquanto Grace é violentada dentro da casa de Chuck, os moradores estão do lado de fora lidando com um policial (por isso ela não poderia gritar), e a falta de paredes nos faz ter a percepção de que as pessoas podiam ver o que estava acontecendo/estavam fazendo, mas preferiam fingir que não. Ela tem seus únicos objetos de estima destruídos (os bonecos que conseguiu comprar na loja de Ma Ginger) e acaba tornando-se literalmente uma escrava. Ela tenta fugir, mas acaba sendo mais uma vez abusada e trazida de volta à cidade. É quando fazem-na viver com uma coleira no pescoço presa a uma roda pesada, para que nunca mais consiga fugir. 
Tom mesmo sabendo de tudo e tendo um relacionamento de paixão recíproca com Grace, não faz muita coisa para ajudá-la, e depois de ser rejeitado, pois ela só queria ter relações com ele estando em liberdade, acaba denunciando-a aos gângsteres, que por sua vez, tratam-se de uma gang chefiada pelo pai dela. Eis o momento que ocorre toda a vingança de Grace aos cidadãos de Dogville. Os quais um a um vão pagando o preço das explorações que a fizeram sofrer.


Dogville, assim como os outros filmes de Lars Von Trier, precisa ser assistido e é importante por além de suas inovações, ter uma estética própria, destoar das produções comerciais hollywoodianas e tratar os temas que caracterizam a arte contemporânea, como no já citado uso de um palco teatral onde o filme é gravado. A falta de uma cidade “real” vista nos filmes em geral aparenta ser uma grande brincadeira sobre a ficção. O filme traz um dos grandes temas da arte e da vida: a humanização/desumanização, e faz uma crítica à sociedade burguesa. Por esse motivo, é recomendado àquelas pessoas que gostam de produções que trazem histórias desafiadoras, que precisam ser assistidas mais de uma vez, para melhor absorção e reflexão dos temas tratados.

Esta resenha foi para obtenção de nota na disciplina de Literatura Brasileira Contemporânea, que por sinal foi a minha favorita esse semestre (até porque é ministrada pelo meu profº favorito <3). Como eu ando muito sumida daqui justamente por conta da faculdade, resolvi aproveitar a resenha desse filme e postá-la. Conforme já havia falado em outro post, gosto muito dos filmes do Lars Von Trier e essa aura sombria que os permeia. Por isso, espero que tenham gostado da resenha, e, mesmo com os spoilers rsrs, saibam que só mesmo assistindo para ter essa experiência inigualável.
Minhas férias estão chegando e ficarei mais presente por aqui, um abraço. <3